O Centenário de Agustina Bessa-Luís

A 15 de Outubro de 2022 fez 100 anos que nasceu a escritora Agustina Bessa-Luís.

Agustina Bessa-Luís


Nessa data iniciaram-se as comemorações do seu Centenário, que se prolongarão até Outubro de 2023. Agustina foi a nossa maior romancista do último século [António José Saraiva escreveu que ela é “depois de Fernando Pessoa, o segundo milagre do século XX português”; Hélia Correia afirma que “se há realmente a noção de génio é, em absoluto, Agustina”] e A Sibila (1953) é o seu romance seminal, um romance-símbolo da literatura portuguesa. Óscar Lopes referiu-o como a maior “revelação” das nossas letras, e Eduardo Lourenço classificou-o também como “milagre”, que, com o seu “aparecimento, deslocou o centro da atenção literária”. Foi agraciado com o Prémio Delfim Guimarães em 1953, ano em que o concluiu, e o Prémio Eça de Queiroz, no ano seguinte, o ano em que foi publicado. Celebramos também o seu 70º aniversário.

Sabemos que o cinema muito deve a Agustina, ela que de pequena começou a frequentar a sala de cinema do seu pai, no Porto, ela que escreveu que foram “o cinema e os livros” que a levaram a tornar-se escritora, ela que era uma grande conhecedora da história do cinema e que escreveu sobre filmes, realizadores e actores, de Dreyer a Orson Welles e Pasolini, Bergman, Bertolucci, Arthur Penn, Peter Greenaway ou Oliveira, que por várias vezes adaptou obras suas. Por tudo isso, a forma mais justa de a homenagear é através do cinema, e o filme mais acertado para o fazer é a adaptação de A Sibila, o livro misterioso e mágico, local e universal, que foi um marco histórico na literatura portuguesa e o mais importante da obra da escritora, o livro que impôs “um mundo romanesco, insólito, veemente, estritamente pessoal, desarmante e tão profuso e rico, verdadeira floresta da memória, tão povoada e imprevisível como a vida, onde nada é esquecido e tudo transfigurado” (ainda Eduardo Lourenço). A Sibila (2022), o filme, com argumento e realização de Eduardo Brito, anima de novo aquelas personagens de um tempo fascinante, agora encarnadas pelas vozes e pelos corpos de duas grandes actrizes, Maria João Pinho e Joana Ribeiro, como Quina e Germa, as “sibilas” de uma história familiar, onde a verdade acompanha a ficção, e a “sibila” Agustina chega a antecipá-la.

A estreia de A Sibila encerrará as comemorações do centenário de Agustina Bessa-Luís e ficará certamente como o grande marco dessas celebrações.


Testemunho de Mónica Baldaque

É conhecido o particular gosto de Agustina pelo cinema – desde criança frequentadora da sala de cinema de seu pai, no Jardim Passos Manuel, no Porto, inúmeras vezes referida por Agustina em entrevistas e nos seus escritos autobiográficos.

Meu pai entrou no mundo do espectáculo com o Jardim Passos Manuel, um café-concerto com teatro ligeiro, canto, palhaços. E um cinema. Às quintas-feiras levava-me e deixava-me em liberdade. Ia para o escritório dele ver fotografias de actrizes que acompanhavam os filmes. Era um mundo de beleza ao alcance da imaginação, e aí tive companhia de grandes astros, de perfil, a fumar um cigarro turco. O cinema, os livros e a D. Inês deram comigo em escritora.
(O Livro de Agustina Bessa-Luís, Três Sinais, 2002)

Tornou-se, Agustina, uma grande conhecedora da história do cinema – sempre actualizada em relação à produção de filmes, aos realizadores, aos actores, às suas vidas. A Palavra, de Carl Dreyer; As Medeias, de Pier Paolo Pasolini; Bonnie e Clyde de Arthur Penn; A Tempestade de Peter Greenaway (talento esmagador); Fanny e Alexandre, de Ingmar Bergman, entre tantos, tantos outros, e por vezes os mais ignorados do grande público, foram analisados por Agustina, com o seu raciocínio inteligente e culto, e que só um profundo conhecedor domina. Testemunhou-o muitas vezes, e publicamente, João Bénard da Costa.
[…]
É conhecida a sua envolvência nas adaptações realizadas por Manoel de Oliveira – tendo mesmo escrito todos os diálogos de Party, e diálogos de alguns dos outros filmes, adaptados de romances seus.

Esta, uma brevíssima entrada neste palco de Agustina, para dizer que não pode haver nenhuma outra forma tão justa de a homenagear, que não seja a de trazer os seus personagens à cena, dar-lhes uma voz que as interprete, um movimento que as anime, um sentir, em que se reconheça o seu público, que de poucos, Agustina desejaria fossem muitos.

Chegou, assim, a altura certa de trazer A Sibila para o cinema. Estranhamente, este romance-símbolo da nossa literatura, se foi transformado num bailado, pela Companhia de Dança Contemporânea, com antestreia no ACARTE em Dezembro de 1998, nunca estimulou a inspiração de um realizador de cinema. Não aponto aqui razões, apenas transcrevo as palavras de Eduardo Lourenço que chama a atenção para a mutação operada pela Sibila no panorama das letras nacionais, assinalando o ano de 1953 como um marco histórico entre duas épocas literárias: o significado mais profundo dessa obra foi, segundo o autor de O Canto do Signo, "acaso, o de ter de novo imposto um mundo romanesco, insólito, veemente, estritamente pessoal, desarmante e tão profuso e rico, verdadeira floresta da memória, tão povoada e imprevisível como a vida, onde nada é esquecido e tudo transfigurado, mundo grave e inesquecível soberanamente indiferente à querela literária ideológica que durante quinze anos paralisara em grande medida a imaginação nacional. Foi como o sinal, há muito esperado, para a grande aventura que desde então tem removido, como em raras épocas passadas, o subconsciente literário português."

A aventura da elaboração de um guião, começou-a Eduardo Brito, a convite de Paulo Branco, em Fevereiro de 2020.

Visitámos a Casa do Paço, o lugar fechado, do mundo fechado, onde se desenrola uma complexa teia de sentimentos que vai determinar todo o percurso literário e de pensamento de Agustina. Entrámos na Rua Agustina Bessa-Luís, que não é uma rua, é um caminho, um caminho de terra, entre campos, que nos leva até ao Paço. Não desejo nenhuma outra rua, ou avenida, com o seu nome. Esta, é a homenagem perfeita, a que comoveu Agustina, e que se entende como um sinal. Está no sítio certo, e leva-nos à nascente, à Sibila.

Já lida e relida e anotada, A Sibila, pelo Eduardo Brito; sempre com inúmeras conversas entre nós os dois, sobre as pessoas daquela casa, as lembranças, sobre a sua atmosfera, foi o embate com os vestígios, e daí partir para a estruturação do guião. Uma tarefa que se apresentava muito difícil, pelos códigos contidos no romance, quase impenetráveis por vezes, foi adquirindo luz e uma linha definida. O Eduardo Brito encontrou-as, respeitando o mistério destas Sibilas (Quina e Germa), os enigmas, que para sempre envolverão este romance.

Entendi como a escolha para realizar este filme foi a mais acertada.

Mónica Baldaque
(Escritora, pintora e filha de Agustina Bessa-Luís)