Nota de Intenções

A adaptação de A Sibila para cinema parte de duas premissas: uma, a vontade de transpor para a tela o espírito da obra, mais além do que o seu decalque. Outra, o entendimento da história como uma espiral: insere-se no fluxo do mundo, parece terminar onde começa — toda a narrativa é contada em analepse: e, bruscamente, Germa começou a falar de Quina, lê-se no início do romance. E o tempo recua.

Comecei a trabalhar no argumento do filme de A Sibila depois de escrever O Pior Homem de Londres, produzido pela Leopardo Filmes e realizado por Rodrigo Areias.

Às leituras e anotações que fiz do livro, seguiram-se longas conversas com Mónica Baldaque, iniciadas numa visita à Quinta do Paço — a Vessada, na história — e prosseguidas na casa de Agustina na rua do Gólgota, Porto.

Daí saíram valiosas informações que o filme acolhe: histórias laterais que aprofundam ideias da obra, sonoridades, expressões, atmosferas, objectos (a célebre fotografia de família, encenada num momento importante na passagem do tempo da história no tempo do filme; a rocking chair onde as personagens Quina e Germa se sentam – a verdadeira cadeira de balouço da Quinta do Paço) e, sobretudo, um conhecimento do espírito das sibilas Joaquina Augusta e Germana, representações, no livro, de Amélia Teixeira Bessa (1877-1957) e da sobrinha Agustina Bessa-Luís.

E como filmar a circularidade de A Sibila? Na estrutura, pela analepse que abre e fecha a história, convocando Germa como narradora, capaz de dar voz à palavra escrita sempre que necessário — seja nos avanços da acção, seja na profundidade do texto, como um evangelho.

No espaço, concentrando-o na Casa da Vessada e arredores — o universo de Quina, todo o espaço até aos limites dos seus conhecimentos, onde os amigos viviam e comunicavam com outros amigos — minimal na decoração, nos diálogos e nos horizontes.

Na essência, apresentando a figura da sibila como mistério: sublinhando a sua natureza nunca totalmente perceptível e propondo a existência de outra sibila: Germa, a narradora, a herdeira da sabedoria profunda e a continuadora do legado espiritual de Quina — no fundo, um modo de ver uma jovem Agustina: espaço e tempo de traduzir a voz da sua sibila.

(Parêntesis: se a passagem de testemunho é evidente — é de Quina que Germa recebe o legado, depois de um conflito com Custódio—, repare-se que Agustina escreve A Sibila em 1953 e que Amélia morre em 1957, tal como o livro previra.)

Na imagem, compondo em planos predominantemente fixos, assim se estabelecendo uma relação com uma ideia de quadro que recebe um sopro de vida — de novo, o e bruscamente —, assumindo o ciclo do dia como o ciclo do filme: o início é matinal, o meio passa-se sobretudo pela tarde e o final é nocturno, retomando-se o dia seguinte e a ideia de ciclo com o fecho da analepse.

Por tudo isto se propõe A Sibila como um filme sobre duas pessoas que contornam o destino que lhes estava traçado: como Amélia, sem sair do seu universo, Quina foge da sua condição de mulher num Portugal rural de inícios do Século XX, socorrendo-se da profunda inteligência na gestão do seu poder de sibila. Se ele existe ou não, a decisão caberá a cada um de nós. Germa, como Agustina, para começar o seu caminho de escritora, queima as pontes com o passado familiar — precisamente o que lhe dá as condições espirituais e materiais para caminhar — e torna-se, ela própria, a sibila que acabaremos por conhecer.

Eduardo Brito